Cuidados ineficazes para dor lombar
- Coluna em Movimento
- 4 de jun. de 2021
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A dor lombar é a principal causa de deficiência do mundo! Ela incapacita principalmente pessoas em idade produtiva, sendo uma das causas mais comuns de aposentadoria precoce e é responsável por elevados índices de faltas ao trabalho, prejudicando também o crescimento da produtividade. Estes problemas estão ainda mais presentes em pessoas com menor nível socioeconômico e menor grau de escolaridade, contribuindo ainda para o ciclo de pobreza e desigualdade social.
No entanto, para além dos prejuízos relacionados à incapacidade em si, muitas pessoas com dor lombar não recebem o tratamento mais adequado, causando danos a milhões de indivíduos em todo o mundo e desperdiçando recursos valiosos em saúde. Neste contexto, uma atualização científica foi publicada chamando a atenção para alguns cuidados que são utilizados, porém são ineficazes ou prejudiciais para dor lombar crônica.
Entre estes cuidados estão o uso excessivo de exames de imagens, opioides, injeções espinhais e cirurgias. A ineficácia destes tipos de modalidades já é bem destacada na literatura, mas em alguns lugares ainda são indicadas.
Os exames de imagem estão associados a custos médicos mais elevados, maior utilização de cuidados de saúde e mais faltas ao trabalho, além de apresentarem uma fraca relação entre as alterações presentes neles e a dor do indivíduo.
Por sua vez, os opioides são medicamentos analgésicos muito utilizados no tratamento de dores de maior intensidade. A morfina é o exemplo mais conhecido destes medicamentos, mas existem muitos outros, como o tramadol, por exemplo. Os opioides são considerados um dos exemplos mais desastrosos de cuidados médicos prejudiciais para dor lombar. Estudos mostram que utilizar opioides não é mais eficaz do que não utilizá-los no tratamento da dor lombar. O seu uso aumenta a probabilidade de causar efeitos adversos indesejados, além do fato de que estes medicamentos podem causar dependência.
É ainda mais preocupante que a medicação opioide esteja sendo substituída ou associada com os gabapentinoides, uma classe de medicamentos anticonvulsivantes, a exemplo da gabapentina e da pregabalina. Seu uso na dor lombar inespecífica não é apoiado pelas evidências científicas, e o pior, elas apontam aumento no número de mortes por overdose quando esses medicamentos são utilizados em associação.
Um outro cuidado que vem ganhando aceitação crescente em alguns países é a utilização de preparações feitas a partir dos canabinoides mediciais (substância encontrada na cannabis). A indústria afirmou em 2019 que havia evidências de que vários produtos de cannabis tinham um efeito benéfico para a dor lombar e que os canabinoides puros não causam dependência, sendo bem tolerados pelo corpo humano e sem riscos à saúde. No entanto, estudos já relatam o uso concomitante de opioides e cannabis, utilizada de forma “recreativa” entre pessoas com dor crônica, demonstrando indícios dessa dependência. Um estudo desenvolvido durante quatro anos descobriu que usuários de cannabis tinham maior dor e menor autoeficácia no controle dessa dor, e não havia nenhuma evidência de que o seu uso reduzisse a intensidade da dor ou exercesse interferência na redução da quantidade de opioides consumidos.
Um outro cuidado que não apresenta evidência científica para dor lombar crônica é a utilização da medicina regenerativa, uma abordagem não-farmacológica que utiliza substâncias presentes no próprio corpo humano, que são colhidas, preparadas e aplicadas diretamente no local da lesão. O plasma autólogo rico em plaquetas e as injeções de células-tronco são algumas das técnicas utilizadas em discos lombares degenerados ou articulações facetárias (entre as vértebras), visando ajudar a regeneração dos discos e/ou articulações. No entanto, a base de evidências atual é insuficiente para apoiar o seu uso em pessoas com dor lombar. Isto acontece porque há apenas uma relação fraca entre a alteração no exame de imagem e a presença ou ausência de dor lombar, isto significa que, mesmo que esses produtos produzam regeneração com sucesso, é improvável que afetem a dor lombar para a maioria das pessoas.
Há ainda outros cuidados recentemente difundidos para dor lombar, como o uso de antibióticos, ablação do nervo basivertebral e fusão da articulação sacroilíaca. Porém estas são terapias novas e ainda não se sabe a respeito de sua eficácia. Por estas razões é importante estar sempre informado a respeito das evidências sobre o assunto. E lembre-se sempre: a recomendação das evidências se baseia na realização de exercício físico e o autogerenciamento da dor!
REFERÊNCIA
Buchbinder R, Underwood M, Hartvigsen J, Maher C. The Lancet Series call to action to reduce low value care for low back pain: an update. Biennial Review of Pain. 2020;161(9):57-64.




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